Oh Ramalho, veja-me aqui este processo. Tem de estar pronto antes do almoço. O Silva era assim, lembrava-se sempre dele para o trabalho, para o resto é que dominava o esquecimento. Já tinha visto e revisto não sabia quantos processos naquela manhã, igual a tantas outras por sinal. Agora era o urgente processo do Silva, ainda mais rabiscado a vermelho que os outros. Rabiscado por tudo quanto era sítio. Pelo Silva, claro. Indiferente ao movimento da repartição e aos olhares dos funcionários, o relógio lá prosseguia a caminhada estóica e soluçante. Por fim, entre dois riscos e dois processos, martelou as doze badaladas. Era a sacramental hora de almoço. Foi um ver se te avias. Toda a gente se levantou de rompante, direito à porta, pois não havia momentos a perder. Dentro em pouco todas as tasquinhas da redondeza estariam cheias e, para os últimos a chegar, só restaria esperar pelo fim do almoço dos primeiros. Nas calmas, claro, quem quiser que espere, ora essa...
Excepção a esta roda eram as meninas de todas as idades que comiam um rissol e uma sopinha e iriam encher os cabeleireiros ou olhar as montras das “boutiques”. Como a colega Cláudia, por exemplo. Era uma das '”vamps” lá da repartição. Sempre em cima da moda, não descurava um pormenor na figura. E que figura!... Alta e magra, qual modelo de revista, a roupa moldava-se-lhe ao corpo como uma segunda pele. Os conjuntos que usava, as meias brilhantes, os colares e as pulseiras, a farta cabeleira arruivada, os óculos escuros nos dias de sol, tudo aquilo de muito bom gosto diziam os entendidos, dizia ele que não percebia nada de moda mas que gostava de olhar... É que a colega Cláudia desorientava o mais respeitável dos homens. Ó Ramalho, vamos à tasca do costume? Era a voz possante de Gregório a desviar-lhe atenções. Queres almoçar com a gente? Agora era o Gregório, armado em brejeiro, a convidar a colega Cláudia. Convite escusado, já se sabia. Obrigada, mas tenho umas coisas a fazer, respondia Cláudia com o batôn do sorriso a brilhar e os sapatos muito altos a caminho da rua. A Cláudia até gostava de alinhar com eles, nem se importava com as piadas metediças de Gregório, mas almoçar, almoçar, era coisa que a colega não devia fazer mais que uma ou duas vezes por mês. Nos restantes dias, o almoço de Cláudia resumia-se a uns salgadinhos ou um filete no pão, a sopinha das senhoras e um café. Era preciso manter a linha e, mais do que isso, era preciso ir mantendo algum dinheiro na carteira até ao fim do mês. Senão, como é que do magro ordenado que recebia, saíam os vestidos e os sapatos, os cabeleireiros e a maquilhagem, as bolsas e os adereços a condizer. Ah, e as revistas da moda, coloridas de fotografias de princesas e outros colunáveis, belas vivendas com piscinas azuis e jardins relvados. Sim, porque milagres só na Bíblia e Cláudia preferia não comer a deixar de comprar aquelas revistas, cada uma delas mais cara que o prato do dia nas tascas da redondeza. Cláudia sabia tudo dos mexericos das vedetas nacionais e internacionais, dos casamentos da alta sociedade, das festas da burguesia endinheirada, dos desfiles da alta costura. O que ela não sabia - nem queria saber, que horror, que fastio... - era dos desempregados que sobravam no mundo, das casas que faltavam ou das que existiam entre tábuas e cartões e jardins de lama e terra, das crianças famintas e ranhosas, da poluição e outros acidentes, dos dramas e tragédias prosaicos e feios. Nada de políticas, repetia ela, e, para problemas, já bastava os próprios. Claro que não faltava gente a repetir, o que Cláudia tinha a mais no físico faltava-lhe por baixo da cabeleira loura. Mas ele, Ramalho, achava que era tudo gente invejosa e pouco tolerante, no fundo, no fundo, ela era apenas uma pobre e boa rapariga enevoada no ópio de um sonho ainda mais fundo e ilusório: encontar um príncipe encantado que a desposasse e a fizesse entrar nesses mundos chiques e deslumbrantes. Talvez até Cláudia fosse feliz à maneira dela. Às vezes a realidade era tão áspera, era áspera demais!
Parece que hoje há cozido à portuguesa, anda daí ó Ramalho. Lá foi, ele e Gregório, invariáveis compinchas da hora do almoço. De vez em quando até de uns copos à saída, um petisco e umas cervejas, uns dedos de conversa, tudo coisas para que Gregório era danado. Aquele emigrante dos campos com saudades do belo pão e chouriço da terra, algures para além do Tejo, paciências de planície para aturar as anedotas infelizes sobre os conterrâneos e conselhos na manga para acalmar as depressões citadinas dos colegas e amigos, estava sempre bem disposto. Olha que a vida são dois dias, não fiques a remoer que isso dá úlceras de estômago... Fúrias, fúrias, só as tinha Gregório contra o governo. Contra todos os governos. Apanham-se no poleiro e aí estão a cantar de galo. Amanham-se a eles e o Zé que se lixe. Oh Ramalho, já ouviste a última sobre a saúde? Agora é que vêm aí as taxas de vez. E que taxas!... Mastigava um bocado de chouriço, alternava com uma garfada de couves. Assim, de cada vez que fores ao hospital, ao centro de saúde ou fazer uma análise, tens de pagar um tanto. Penalização da grossa. O problema é que quem se lixa és tu, que já ganhas mal e descontas muito. Mais taxa menos taxa não fazem diferença ao Director Geral, que tem médico à ordem, nem ao Ministro, que tem médico e clínica... Eles bem dizem que não mas é tudo aldrabice. O povo já tem uma miséria de assistência na saúde, e agora, ainda por cima, para ter direito à miséria pagas aí e é se queres. Dois goles de tinto e Gregório aquecia. Eles bem dizem que o pessoal recorre aos serviços de saúde sem motivo válido, que passa a vida a ir às consultas sem precisar, que só lá vai buscar receitas para comprimidos e injecções que nem falta lhes faz. E que, portanto, isto é tudo para moralizar. Até parece que o divertimento das pessoas é passar umas horinhas nos consultórios. Ah, safados, isto é mas é troçar na cara da gente. E depois limpam-se dizendo que vivemos numa economia de mercado, que quem quer saúde tem de a pagar, que isto é tudo uma democracia e liberdade. Se as palavras se comessem, oh Ramalho, quanta indigestão não havia por aí...
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em janeiro 10, 2004 06:15 PM